segunda-feira, 23 de abril de 2012

domingo, 22 de abril de 2012

quinta-feira, 19 de abril de 2012

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Contando uma história

Antero de Quental

Nirvana

Viver assim: sem ciúmes, sem saudades,
Sem amor, sem anseios, sem carinhos,
Livre de angústias e felicidades,
Deixando pelo chão rosas e espinhos;

Poder viver em todas as idades;
Poder andar por todos os caminhos;
Indiferente ao bem e às falsidades,
Confundindo chacais e passarinhos;

Passear pela terra, e achar tristonho
Tudo que em torno se vê, nela espalhado;
A vida olhar como através de um sonho;

Chegar onde eu cheguei, subir à altura
Onde agora me encontro - é ter chegado
Aos extremos da Paz e da Ventura!
Antero de Quental, in "Sonetos"

quarta-feira, 11 de abril de 2012

domingo, 8 de abril de 2012

Um fantástico romance épico


Boris Pasternak foi Prémio Nobel de Literatura no ano de  1958 e para isso em muito este fantástico romance épico, publicado precisamente nesse ano,  terá contribuído. 
Esta é a história de Iuri Jivago, médico de formação e poeta,  cuja postura perante o regime soviético lhe trará vários dissabores. Iuri é um homem culto, oriundo do meio burguês,  que luta pelos seus ideais e que se vai apercebendo da forma errada como a revolução se desenrola e das crueldades e injustiças de que os Russos são vítimas impotentes e constantes. A vida amorosa de Iuri vai também sofrer os percalços deste período de terror. Há quem considere que Iuri é um alter-ego de Pasternak dado este também ser um poeta com  problemas com o regime, tendo mesmo sido enviado para um Gulag.
Um excelente retrato dos anos que antecederam e se seguiram à revolução Russa, das esperanças e consequentes desencantos sentidos por uma população ávida de justiça e sucessivamente massacrada.
De notar que este livro apenas foi editado na União Soviética após a abertura proporcionada pela Perestroika e que aquando da atribuição do Prémio Nobel, Boris Pasternak foi impedido de o receber.

sábado, 7 de abril de 2012

Um realismo mágico

Por Marisa Torres da Silva

"Paula", de Isabel Allende, é o testemunho contado na primeira pessoa sobre a morte de uma filha. Como se de uma viagem ao sofrimento humano se tratasse, o livro percorre também a vida da escritora, entrecortada por alegrias e tristezas, acontecimentos que fizeram história, personagens diversas, amores e desilusões
Isabel Allende garante que esta obra não é sobre a morte. "O meu livro 'Paula' é uma memória trágica da história da morte de uma jovem rapariga, mas sobretudo uma celebração da vida. (...) A sua longa agonia deu-me a oportunidade única de rever o meu passado." Com efeito, embora "Paula" tenha como ponto de partida e fio condutor a doença da filha da escritora, o livro vai-se transformando num autêntico documento autobiográfico, à medida que Isabel Allende faz desfilar as figuras e os acontecimentos que intervieram na sua vida. Não se trata de uma mera obra auto-complacente, portanto.
Como afirma a escritora, o romance serviu de veículo para prolongar a presença da filha junto da mãe, para manter a vida que já a tinha abandonado desde o momento em que deu entrada no hospital, mergulhando num coma profundo. Para Isabel Allende, a escrita funcionou aqui como um elemento catártico, a salvação para a mais profunda das agonias, fixando no papel as memórias e as recordações, para que o tempo não as apagasse irreversivelmente.
Ao mesmo tempo que a autora exprime os dolorosos estados de espírito em que se encontra, plenos de dúvidas e de receios, essa longa viagem ao interior de si mesma, quando confrontada com uma situação limite, dá lugar a uma reconstrução da história da sua família. Em "Paula", Isabel Allende como que pinta um auto-retrato, apoiado em informações da mais variada índole, acerca dos seus progenitores, infância, desgostos, crenças e métodos de trabalho. Talvez porque, como diz, "toda a ficção é, em última análise, autobiográfica. Escrevo sobre amor e violência, sobre morte e salvação, sobre mulheres fortes e pais ausentes, sobre sobrevivência".

Todas as suas memórias que inevitavelmente florescem com o decorrer da escrita são retocadas com a linguagem que habituou e prendeu leitores em todo o mundo, reminiscente do chamado realismo mágico sul-americano. Há, aliás, quem a considere uma parente pobre de Gabriel García Márquez. Gostos à parte, certo é que o seu estilo de escrita e as histórias que os seus livros contam a tornaram famosa.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Vivemos num mundo de histórias

« Estás para começar a ler o novo romance Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino. Descontrai-te. Recolhe-te. Afasta de ti todos os outros pensamentos. Deixa esfumar-se no indistinto o mundo que te rodeia. A porta é melhor fechá-la; lá dentro a televisão está sempre acesa. Diz aos outros: "Não, não quero ver televisão!". Levanta a voz, senão não te ouvem: "Estou a ler! Não quero que me incomodem!". Não devem ter-te ouvido, com aquele barulho todo; fala mais alto, grita:”Estou a começar a ler o novo romance de Italo Calvino!”…»

É com este convite especial que o autor nos introduz no seu novo romance cuja arquitectura assenta nos inúmeros percalços que assaltam um leitor e uma leitora desde o momento em que se vêem confrontados com a súbita interrupção da história de Se numa noite de Inverno um viajante e decidem investigar a origem de tal facto.

O romance divide-se em doze capítulos, os primeiros dez seguidos cada um de um título que introduz uma história diferente, sempre iniciada e interrompida num momento aliciante da leitura. Os capítulos com numeração parecer conter a voz do autor empírico Ítalo Calvino, os restantes iniciam dez romances de autores imaginários, cada um com um título diferente, resultantes da busca incessante que o leitor faz para averiguar o que se passou, de facto, com o percurso do romance com que iniciou a leitura. O conjunto dos diferentes títulos surge, a dado momento, num texto corrido constituindo ele mesmo um corpo significativo:
Se numa noite de Inverno um viajante, fora do casario de Malbork, debruçando-se da escarpada falésia sem temer o vento e a vertigem, olha para baixo onde a sombra se adensa numa rede de linhas que se entrelaçam, numa rede de linhas que se intersectam no tapete de folhas iluminadas pela lua à volta de uma cova vazia ,- Que história lá ao fundo espera o fim?

Este livro, de surpreendente estrutura, torna-se original pelo permanente diálogo com o leitor que é também personagem e, por outro lado, com o leitor real, aproximando-nos da construção narrativa e levando-nos a apreciar a mestria da escrita, com um conjunto de expressões que apetece reter, passar para um caderno para reler um dia.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Uma bela metáfora

O relato de uma época, onde a paisagem física e social é pintada com as palavras que mergulham na memória, impregnada de nostalgia. A fotografia de uma realidade social, enquadrada no cenário de guerra colonial na belíssima costa moçambicana.

O Prólogo, onde a Autora dá voz a Eva Lopo, começa por descrever a faustosa cerimónia da festa de casamento de Evita e Luís Alex, da qual sobressai a exuberância patente na profusão dos frutos exóticos e mariscos; destaque também par a outra cena, o reverso da medalha, ou o outro lado do paraíso, onde a matança dos flamingos, que constitui uma metáfora a representar a embriaguez que leva ao desejo compulsivo de matar de onde se depreende parecer fácil cruzar o limite de “matar para não morrer” e exercitar, a partir dali, o prazer de apertar o gatilho para “fazer o gosto ao dedo”. Lídia Jorge consegue mostra de uma forma crua e simultaneamente bela que a facilidade com que se dizima um bando de flamingos da cor da alvorada é a mesma com que se procede à chacina de um grupo de rebeldes locais. Trata-se de uma metáfora de coragem e integridade que nem sempre se consegue reconhecer de imediato: o bando de flamingos não se desfaz facilmente, mantendo a formação em direcção ao objectivo, apesar daqueles que ficam para trás e se afundam no pântano, caídos perante as balas do inimigo…

quarta-feira, 4 de abril de 2012

terça-feira, 3 de abril de 2012

Uma viagem pelos recantos mais sombrios da psicologia humana

"O Homem que via Passar os Comboios", é uma obra que se insere no género da literatura policial, ou não fosse Georges Simenon o criador do celebérrimo comissário parisiense Jules Maigret. Kees Popinga é o protagonista deste divertido e admirável romance, que permite ao leitor realizar um trajecto pelos recantos mais sombrios da psicologia humana. Aliando o "suspense" próprio dos policiais e uma caracterização minuciosa das personagens que aí intervêm, "O Homem que Via Passar os Comboios" analisa e reflecte sobre os fantasmas que povoam o inconsciente humano, mergulhando nas profundezas da sua alma. O comportamento de Popinga contraria, em si mesmo, qualquer princípio de causa-efeito que seria de esperar, mantendo, porém, uma postura irónica e distanciada perante os acontecimentos. Além de levantar questões acerca da vida como jogo e encenação, o livro espelha também o estilo literário de Simenon, realista, simultaneamente vivo e misterioso, instintivo e concreto.«»

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Escrita com amor

Dia Internacional do Livro Infantil

Robby, os objetivos

Será a vida de Hemingway?


Para alguns, um notável exercício, para outros "mau Hemingway". Esta obra póstuma de Ernest Hemingway, apesar da falta de consenso junto do público e da controvérsia em torno do seu trabalho de edição, permanece como um belo livro da literatura actual.

O pormenor é importante quando se sabe que o material por ele usado para a escrita foi sempre muito mais a sua vida do que a imaginação. Ernest e a primeira mulher, Hadley, passaram o Verão de 1926 na Riviera francesa na companhia de uma amiga, precisamente Pauline. Mais tarde, Hemingway escreveu sobre esse Verão: "O arranjo tem vantagens até sabermos como funciona." Mais: "Quando acaba o seu trabalho, o marido tem duas mulheres atraentes por perto. Uma é nova e estranha e se ele tiver azar acaba por amar as duas... Primeiro é estimulante e divertido... Todas as coisas verdadeiramente perversas partem da inocência." Hemingway falava da sua vida. Ou seria de "O Jardim do Éden"?
Por João Carlos Silva (in coleção Mil Folhas)

domingo, 1 de abril de 2012

Dona Flor e os seus dois maridos

Segundo Jorge Amado, um livro surge às vezes de um acontecimento, de uma frase, de uma pessoa, assim como ocorreu com Dona Flor e seus dois maridos de l966.O romance é resultado de uma historia real ocorrida na decada de 30 na Bahia com uma senhora que, quando jovem, casara com um boêmio, jogador e mulherengo, morto logo depois do casamento.
A jovem viuva volta a casar com o honesto comerciante portugues Teodoro, mas algum tempo depois passa a sonhar com Vadinho, o marido morto, que lhe aparece exigente de amor. Honesta e de uma moral acima de qualquer desvio, Dona Flor passa a viver o terrivel drama sem saber como resolve-lo. Na vida real, a viuva eterniza o seu drama ao contá-lo a um amigo de Jorge Amado que na ficção se encarrega de resolver o impasse.
"Os personagens surpreendem muito. Se é vivo, reage, não obedece", explica o autor para afirmar que no romance o personagem de Dona Flor surpreende Jorge Amado ao sucumbir aos encantos do marido morto que, depois de saciado, vai embora enquanto ela se entrega ao marido real achando que se um é bom, dois é ótimo.O escritor achava que devido a sua moral irretocável Dona Flor não aceitaria os encantos do marido morto, e foi esse o fim que escreveu antes de dormir e sonhar com o outro final em que ela, afinal, cede à tentação. Para o autor, a moral do romance está em que o amor supera a morte.
"Se o meu fim prevalecesse, seria a morte que venceria".

sábado, 31 de março de 2012

Siddartha

Siddartha ou uma lição da luz
Por Fernando Magalhães
Na próxima quarta-feira é a vez de "Siddartha", de Herman Hesse, que foi e continua a ser livro de cabeceira de muita gente
A maior parte de nós acorda todos os dias de manhã sem reparar que os olhos continuam fechados e que tudo em redor se mantém envolto em escuridão. "Siddhartha", de Herman Hesse, é o livro ideal para limpar as ramelas e afastar as cortinas do quarto. É um livro pequeno no tamanho mas imenso e intenso no que diz. E o que diz, di-lo directamente ao coração, sem intermediários. Foi escrito em 1922 por Herman Hesse (1877-1962), alemão naturalizado suíço, Prémio Nobel da Literatura em 1946 e que logo na infância declarara que "seria poeta ou não seria nada". As suas páginas estão cheias de zen. Nada de espantoso, se considerarmos que a espiritualidade caminha de Oriente para Ocidente (tenhamos esperança de que chegue cá a tempo e horas, como está escrito na luz).
"Siddhartha" foi e continua a ser livro de cabeceira de muita gente. Para alguns, uma espécie de bíblia de bolso do Budismo na Índia que tanto enforma a noção de "eterno retorno" de Nietzsche como ilustra o naturalismo metafísico (mesmo se o termo lhe repugnava...) de Alberto Caeiro. Para outros, simplesmente a história de Siddhartha, filho de brâmane, que se tornou Buda, e do seu amigo Govinda, personificação do espírito crítico e do racionalismo ocidentais.
"Siddhartha" é ambas as coisas: uma fonte de sabedoria e um romance bem contado. Ao longo dos seus doze capítulos (curiosamente, os mesmos que os arquétipos do Ser...) conta-se a história de Siddhartha, desde os tempos de infância, quando "já sabia pronunciar Om silenciosamente" e "reconhecer Atman nos abismos do seu ser", até à velhice e à definitiva iluminação, passando pela fruição sem reservas da vida mundana e pela tentação do suicídio. É também a história do seu amigo Govinda que o segue a par e passo, em busca de consolo espiritual e de respostas para o enigma da (sua) vida.
Livro de sabedoria, deslocado dos tempos que correm e, por essa razão, de leitura indispensável para se olhar para os tempos que correm com olhos de ver, "Siddhartha" tem tanto de lição de humanismo como, paradoxalmente, de libelo contra todas as escolas ou doutrinas de pensamento. Mas atenção, há uma (a)tensão e disponibilidade interiores que cumpre preservar, caso queiramos receber de mãos dadas com Siddhartha, o nirvana. "Nirvana não é apenas uma palavra, meu amigo - protestou Govinda - é um pensamento!. "Será um pensamento, mas devo confessar-te, meu amigo, que não diferencio muito entre pensamentos e palavras. Para ser franco, também não atribuo grande importância aos pensamentos. Atribuo mais importância às coisas." Quem não se dispuser a ir tão fundo tem, de qualquer forma, em "Siddhartha", bastante que colher e com que ficar fascinado. A escrita não poderia ser mais clara nem directa, possuindo o dom de modificar, senão a vida, pelo menos a visão daqueles de nós que, sedentos de Verdade, exclamam como Govinda: "Dá-me algo que me ajude no caminho, Siddhartha. O meu caminho é frequentemente duro e escuro". Leia-se, então, "Siddhartha", como quem segura uma lanterna.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Vinhas Da Ira

A dignidade humana

As Vinhas da Ira é um romance sobre a dignidade humana em condições desesperadas. Entre 1930 e 1939, as grandes planícies do Texas e do Oklahoma foram assoladas por centenas de tempestades de poeira que causaram um desastre ecológico sem precedentes, agravaram os efeitos da Grande Depressão, deixaram cerca de meio milhão de americanos sem casa, e provocaram o êxodo de muitos deles para Oeste, nomeadamente para a Califórnia, em busca de trabalho. Quando os Joad perdem a quinta de que eram rendeiros no Oklahoma, juntam-se a milhares de outros que ao longo das estradas se dirigem para Oeste, no sonho de conseguirem uma terra que possam considerar sua. E noite após noite, eles e os seus companheiros de desdita reinventam toda uma sociedade: escolhem-se líderes, redefinem-se códigos implícitos de generosidade, irrompem acessos de violência, de desejo brutal, de raiva assassina.

Este é daqueles livros dos quais já quase toda a gente ouviu falar, sendo considerado um dos mais importantes de sempre da literatura norte-americana. John Steinbeck, natural da Califórnia, decidiu escrever este livro partindo de uma série de artigos sobre os trabalhadores agrícolas oriundos do Oeste e Centro do país, que durante a altura da
Grande Depressão rumaram à Califórnia em busca do trabalho que o seu local de origem já não lhes garantia. Steinbeck desejava com este livro chamar a atenção para os culpados da grave crise que deflagrou no seu país.
Grande parte do enredo segue a história da família Joad, que se vê obrigada a abandonar a sua casa em Oklahoma devido às tempestades de areia que assolaram a região nos anos 30 e que pioraram ainda mais a situação precária em que já viviam. Sem outra alternativa, rumam à Califórnia em busca de trabalho e da sua sobrevivência, numa viagem em que a esperança num futuro melhor era o que não podiam deixar fugir.
A família Joad é numerosa: pai, mãe, 6 filhos, tio, dois avós e ainda o marido de uma das filhas, que por sinal está grávida. Todas estas pessoas, mais um ex-pregador que se junta à família, rumam à Califórnia num camião que ameaça avariar a qualquer momento, cheio de pessoas e dos pertences da vida que deixaram para trás. Acompanhamos as peripécias da viagem da família, a sua chegada à Califórnia e a consequente luta por encontrar um sítio onde morar e trabalhar.
A personagem principal é Tom Joad, o filho. Depois de passar alguns anos na prisão por ter assassinado um homem, regressa a casa mesmo a tempo de acompanhar a família na viagem. Apesar do seu passado recente, Tom é um jovem que demonstra ter dentro de si uma revolta crescente quanto às condições de vida das classes mais pobres. Mas a personagem que realmente me cativou foi a Mãe. Uma mulher do campo, trabalhadora, fruto do seu tempo, mas com uma sabedoria simples e tocante.

LORD OF FLIES (SENHOR DAS MOSCAS) LEGENDADO

Um dos mais aclamados romances da atualidade

"Publicado originalmente em 1954, O Deus das Moscas de William Golding é um dos mais perturbadores e aclamados romances da actualidade.
Um avião despenha-se numa ilha deserta, e os únicos sobreviventes são um grupo de rapazes. Inicialmente, desfrutando da liberdade total e festejando a ausência de adultos, unem forças, cooperando na procura de alimentos, na construção de abrigos e na manutenção de sinais de fogo. A supervisioná-los está Ralph, um jovem ponderado, e o seu amigo gorducho e esperto, Piggy. Apesar de Ralph tentar impor a ordem e delegar responsabilidades, muitos dos rapazes preferem celebrar a ausência de adultos nadando, brincando ou caçando a grande população de porcos selvagens que habita a ilha. O mais feroz adversário de Ralph é Jack, o líder dos caçadores, que consegue arrastar consigo a maioria dos rapazes. No entanto, à medida que o tempo passa, o frágil sentido de ordem desmorona-se. Os seus medos alcançam um significado sinistro e primitivo, até Ralph descobrir que ele e Piggy se tornaram nos alvos de caça dos restantes rapazes, embriagados pela sensação aparente de poder."

Sabedoria

O homem sábio é aquele que não se entristece com as coisas que não tem, mas rejubila com as que tem.
(Epicteto)

O Ano da morte de Ricardo Reis

Ricardo Reis revisitado
Marisa Torres da Silva
A reconstrução da identidade imaginária de um dos heterónimos do poeta Fernando Pessoa constitui o mote do livro "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (1984), um dos melhores romances de José Saramago, dois anos depois da publicação de "Memorial do Convento". Ricardo Reis, tal como o título o deixa prever, é a personagem central do livro, mas também Fernando Pessoa, o seu criador, ocupa um lugar preponderante na acção, a qual se situa historicamente nos anos 30, época de plena consolidação da ditadura salazarista.
Partindo das pistas biográficas de Ricardo Reis registadas pelo próprio Pessoa - um médico que se expatriara desde 1919 no Brasil, por motivos políticos -, Saramago imagina a personagem no seu regresso a Portugal em Dezembro de 1935, descrevendo o seu quotidiano nos nove meses anteriores à sua morte. Ricardo Reis chega a Lisboa, aluga um quarto de hotel e depois um apartamento, envolve-se com duas mulheres, Lídia e Marcenda, é seguido pela polícia, além de receber sucessivas visitas do falecido Fernando Pessoa, o que contribui para acentuar o ambiente de irrealidade da acção.
Em "O Ano da Morte de Ricardo Reis", a escrita de Saramago possui uma forte marca de intertextualidade, sendo que os nomes de Marcenda e Lídia derivam ambos das "Odes de Ricardo Reis" de Pessoa, além do facto de o romance de Saramago se construir em torno da personagem inventada pelo poeta, reconstruída através do diálogo com o seu criador. Também as referências a Luís de Camões são constantes ao longo da obra, bem como a presença do escritor argentino de ascendência portuguesa Jorge Luis Borges. Toda esta multi-referencialidade que perpassa pelo livro transforma "O Ano da Morte de Ricardo Reis" num romance que se transcende a si próprio, posicionando-o numa tradição literária simultaneamente clássica e moderna, portuguesa e internacional.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Olhares



Quem não compreende um olhar também não compreenderá uma longa explicação.
(Provérbio árabe)

O Outono do Patriarca

Por Clara Viana
O mundo de um ditador eterno, escrito num monólogo a várias vozes pelo colombiano Garcia Márquez
general de "O Outono do Patriarca" - publicado pela primeira vez em 1975 e que será vendido amanhã com o PÚBLICO - começou a ser perseguido pelo colombiano Gabriel Garcia Márquez em 1958. Era ainda então "uma narrativa conformista e linear, na terceira pessoa" sobre um ditador imaginário das Caraíbas, que sofreu o primeiro assalto na Cuba recém-saída da revolução, quando o escritor, e mais tarde Prémio Nobel da Literatura, no seu papel de jornalista, assistiu ao julgamento de um outro general num estádio sobrelotado. Garcia Márquez soube então que se impunha escrever de outro modo o mundo do seu ditador eterno. Mas isso foi antes de ter sido "tomado de assalto pelo cataclismo de Cem Anos de Solidão".
O general teria, assim, de esperar vários anos mais para entregar o mar do seu país aos gringos. Filho bastardo de uma criadora de pássaros, que se quis a si próprio concebido pela graça divina, que se fez Messias, aclamado pelo povo, e atacado pelo "vício solitário do poder" até o seu próprio compadre serviu ao jantar, o corpo recheado de pinhões e ervas aromáticas.
Mas a ele doía-lhe tão-só aquela "inconcebível maldade do coração com que vendeu o mar a uma potência estrangeira e nos condenou a viver defronte desta planura sem horizonte de áspero pó lunar", como contam os que descobriram o seu cadáver. Numa altura em que o seu poder ganhara já uma existência distinta da do velho que percorria sozinho o palácio presidencial, deixado por conta de vacas, galinhas e cães.
Sete anos de escrita
Muito tempo antes desse longuíssimo Outono em que foi apanhado pela morte numa idade incerta entre os 107 e os 232 anos, a sua mãe Bendición Alvarado, vendo-o, pela primeira vez, de "uniforme de cerimónia com as medalhas de ouro e as luvas de cetim que continuou a usar durante o resto da vida", exclamou "que se eu soubesse que o meu filho vinha a ser presidente da República tinha-o mandado à escola".
Foi um hipotético pai de cinco mil filhos, todos nascidos de sete meses, dono de umas mãos sem mácula de linhas nas palmas, de uns enormes pés chatos e de um também descomunal testículo que lhe encharcou de dor toda a sua longa vida, e cuja segunda morte foi saudada com música, foguetes e sinos, anunciando ao mundo "a boa nova de que o tempo incontável da eternidade tinha finalmente acabado".
Ao fim de sete anos de escrita, Garcia Márquez alcançara o que se tinha proposto e que ensaiara em vários contos escritos com o fito de não repetir a sua obra mais aplaudida, "Cem Anos de Solidão". Como ele próprio confessou sobre este seu livro: "O mais difícil não foi escrevê-lo, mas sim tirá-lo de cima de mim."

O Nome da Rosa

Sherlock Holmes entre os monges 
Marisa Torres da Silva
Uma simples ideia fez surgir aquele que é considerado um dos maiores best-sellers da literatura contemporânea. A Umberto Eco fascinava-o "a imagem de um monge envenenado enquanto lia um livro na biblioteca". E assim nasce, em 1980, o primeiro romance do semiólogo italiano
Crónica medieval, intriga policial, jogo literário. Qualquer tentativa de espartilhar "O Nome da Rosa" numa categoria única afigura-se inútil e frustrada. O primeiro romance de Umberto Eco, professor de semiótica na Universidade de Bolonha, contém em si mesmo todos os ingredientes de uma obra inesperada.
Traduzido para mais de 60 línguas e vencedor de dois dos principais prémios literários italianos (Viareggio e Strega), "O Nome da Rosa", um enorme sucesso de vendas a nível mundial, explora as diversidades, contradições e complexidades do mundo medieval, mas também levanta questões relacionadas com a actualidade, em última análise, sobre o que é constitui a cultura, a quem é transmitida, por quem e com que objectivos.
Umberto Eco é, aliás, um autor que, à semelhança de muitos outros na história da literatura, desenvolve uma dupla via de criação: por um lado, o discurso académico (é um semiólogo internacionalmente reconhecido) e, por outro, a narrativa de ficção. Neste autor, os dois universos cruzam-se incessantemente, sobretudo no que diz respeito à escrita de romances, que beneficiam do próprio percurso de Eco.
O livro "O Nome da Rosa" constitui um prodigioso relato histórico, que projecta o leitor para a primeira metade do século XIV e para o universo monástico. Entre as descrições do clero da época, a evocação da vida quotidiana de uma abadia beneditina, os perfis dos monges e das suas ocupações diárias, passando pela cozinha até às discussões teológicas, a obra explora toda uma panóplia de peças e de espelhos onde se esconde, no meio de milhares de volumes e manuscritos, a síntese do saber humano. Ironicamente, o enredo do livro parece querer dizer que tanto a sede de conhecimento como a busca da verdade são perigosos, ambíguos e ilusórios.
A biblioteca de uma grande abadia medieval é o centro e o palco principal de toda a trama, construída de forma labiríntica, de onde partem caminhos e pistas ambivalentes. Nas palavras de Guilherme de Baskerville, um dos protagonistas do romance e que corresponde a uma espécie de Sherlock Holmes transposto para os tempos medievais, "a biblioteca defende-se por si, insondável como a verdade que acolhe, enganosa como a mentira que encerra. Labirinto espiritual, é também labirinto terreno. Poderiéis entrar e poderiéis não sair" (Primeiro Dia, Terça).
Elementar, meu caro Adso
Toda esta complexidade inerente ao livro e as múltipas questões que coloca aparecem, porém, disfarçadas sob a forma de intriga policial. Está tudo lá: homicídios, suspense, pistas, o detective e o seu ajudante, as revelações a par e passo e o desenlace final.
Mas convém descrever minimamente o enredo da obra. Decorria o ano de 1327, dominado pelas lutas entre o Imperador e o Papa, e, dentro da esfera eclesiástica, entre a igreja e as ideias reformistas franciscanas. Guilherme de Baskerville, monge franciscano, e o seu jovem discípulo Adso de Melk chegam a uma abadia situada no norte de Itália, que possui a mais completa biblioteca da cristandade. Tanto o abade como os monges controlam meticulosamente o acesso à colecção.
Todo este ocultismo que a envolve deve-se ao facto de aí existirem milhares de livros escritos por autores pagãos, judeus e árabes, bem como diversos registos de heresias. Com efeito, é particularmente vedado o acesso a um livro, o segundo volume da Poética de Aristóteles, que faz uma apologia do riso e das suas virtudes.
Eco cria também, a par de Guilherme e de Adso, uma personagem extraordinária, dotada de um saber enciclopédico: Jorge de Burgos (numa evidente alusão ao escritor argentino Jorge Luis Borges), adversário à altura de Guilherme de Baskerville. Ambos se confrontam em acaloradas discussões sobre a permissibilidade do riso: enquanto Jorge de Burgos o define como "fonte de dúvida" e "coisa bastante próxima da corrupção e da morte", Guilherme encara-o como algo que "é próprio do homem, sinal da sua racionalidade".
Da época medieval ao século XVII
No ano de 1980, Umberto Eco dava início a uma triunfal carreira literária que o transformou num dos romancistas europeus mais lidos da década. O desencanto suscitado pelo seu segundo romance, "O Pêndulo de Foucault" (1988), não lhe afectou o crédito, pelo menos comercial.
Em "O Nome da Rosa", Eco aplicou os moldes da novela policial ao romance histórico, utilizando como temática o mundo medieval. Com "O Pêndulo de Foucault", abandona a Idade Média, mas não a matéria medieval, retomando-a com a história da dissolução dos templários, para criticar os esoterismos, outra face da transcendência religiosa. "A Ilha do Dia Antes" (1994) situa-se no século XVII, na época da Guerra dos Trinta Anos; o enredo, tal como "O Nome da Rosa" possui um indisfarçável tom lúdico. No ano passado, Eco regressou à época medieval com o romance "Baudolino", mas desta vez explora o ambiente laico, numa história recheada de humor e de mentiras.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Uma nova aventura


Os Aventureiros no Rio SubterrâneoNeste livro, os Aventureiros fazem uma excursão aos castelos da região. Na mesma altura dá-se um audacioso roubo de diamantes. Quem serão as duas estranhas senhoras e que escondem elas? A situação complica-se no Mosteiro de Alcobaça quando Bia fica fechada lá dentro, à noite…
ISABEL RICARDO AMARAL escreveu o primeiro livro com apenas 11 anos e possui já uma vasta obra, publicada não só em Portugal, mas também no estrangeiro.
Considerada uma referência valiosa na literatura infantil e juvenil, apresenta várias colecções de grande sucesso, entre elas “Os Aventureiros” e “Guerreiros da Luz”, razão por que é recomendada por vários Professores de Português.
Contos Marotos e “Contos do Bosque Sempre Verde são duas colecções que surgiram a pedido dos mais pequenitos que acompanhavam os irmãos mais velhos no pedido de autógrafos das colecções infanto-juvenis da autora, “Os Aventureiros e Guerreiros da Luz.
É também considerada uma referência importante no romance histórico e perita em criar romances com enredos empolgantes, repletos de mistério e suspense que transportam os leitores para o encantamento da ficção.
A sua escrita mágica e fascinante tem vindo a apaixonar leitores de todas as idades, fazendo-os sentir a emocionante sensação de fazer parte do próprio livro.
Neste momento, conta já com um leque variado de obras publicadas, 28, sendo a maioria para crianças e jovens.
Adora escrever, ler e viajar por sítios que lhe servem de fonte de inspiração para os seus livros, bem como o contacto com os seus leitores nas escolas que tem visitado.
Dedicada exclusivamente à escrita, divide o seu tempo entre esta e encontros com alunos, em sessões de incentivo ao livro e à leitura, promovidas por escolas e bibliotecas.

domingo, 18 de março de 2012

Quando os sonhos da adolescência se evaporam

 A fuga incessante ao destino inevitável de se tornar adulto é o móbil de Ruben, o adolescente que protagoniza este romance. Vivendo inicialmente nun mundo idílico de fantasia e liberdade, Ruben vê-se obrigado a actuar e a cumprir as regras severas que Oskar, o seu intransigente perceptor, lhe impõe. Mas Ruben foge conduzido pelo pânico, iniciando uma viagem mirabolante durante a qual se vê envolvido com personagens excêntricas e inquietantes, em ambientes surreais. O seu rumo? A América onde se encontra o riquíssimo tio Isacc e onde Ruben crê ser possível fazer perdurar a sua infância. Contudo... evaporados os sonhos da adolescência, Ruben regressa descobrindo o que deles resta intacto em cada um de nós
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