Por Clara Viana
O mundo de um ditador eterno, escrito num monólogo a várias vozes pelo colombiano Garcia Márquez
O general teria, assim, de esperar vários anos mais para entregar o mar do seu país aos gringos. Filho bastardo de uma criadora de pássaros, que se quis a si próprio concebido pela graça divina, que se fez Messias, aclamado pelo povo, e atacado pelo "vício solitário do poder" até o seu próprio compadre serviu ao jantar, o corpo recheado de pinhões e ervas aromáticas.
Mas a ele doía-lhe tão-só aquela "inconcebível maldade do coração com que vendeu o mar a uma potência estrangeira e nos condenou a viver defronte desta planura sem horizonte de áspero pó lunar", como contam os que descobriram o seu cadáver. Numa altura em que o seu poder ganhara já uma existência distinta da do velho que percorria sozinho o palácio presidencial, deixado por conta de vacas, galinhas e cães.
Sete anos de escrita
Muito tempo antes desse longuíssimo Outono em que foi apanhado pela morte numa idade incerta entre os 107 e os 232 anos, a sua mãe Bendición Alvarado, vendo-o, pela primeira vez, de "uniforme de cerimónia com as medalhas de ouro e as luvas de cetim que continuou a usar durante o resto da vida", exclamou "que se eu soubesse que o meu filho vinha a ser presidente da República tinha-o mandado à escola".
Muito tempo antes desse longuíssimo Outono em que foi apanhado pela morte numa idade incerta entre os 107 e os 232 anos, a sua mãe Bendición Alvarado, vendo-o, pela primeira vez, de "uniforme de cerimónia com as medalhas de ouro e as luvas de cetim que continuou a usar durante o resto da vida", exclamou "que se eu soubesse que o meu filho vinha a ser presidente da República tinha-o mandado à escola".
Foi um hipotético pai de cinco mil filhos, todos nascidos de sete meses, dono de umas mãos sem mácula de linhas nas palmas, de uns enormes pés chatos e de um também descomunal testículo que lhe encharcou de dor toda a sua longa vida, e cuja segunda morte foi saudada com música, foguetes e sinos, anunciando ao mundo "a boa nova de que o tempo incontável da eternidade tinha finalmente acabado".
Ao fim de sete anos de escrita, Garcia Márquez alcançara o que se tinha proposto e que ensaiara em vários contos escritos com o fito de não repetir a sua obra mais aplaudida, "Cem Anos de Solidão". Como ele próprio confessou sobre este seu livro: "O mais difícil não foi escrevê-lo, mas sim tirá-lo de cima de mim."