Ensinar a ler é, também, ensinar a alargar esse horizonte — e não apenas a confirmá-lo.
Formar a identidade leitora não é o mesmo que ensinar a decifrar texto
Vários estudos referidos no artigo original sugerem que as atitudes e os valores tendem a estabilizar-se entre os dezoito e os vinte e cinco anos. É uma indicação a tratar com cautela — o próprio autor reconhece tratar-se de uma tendência genérica, não de uma regra fixa — mas que reforça a urgência de trabalhar a identidade leitora desde os primeiros anos de escolaridade, antes de essa janela se fechar. Isto não significa que a curiosidade cultural se imobilize na vida adulta. Significa que, sem o hábito de se manter aberto a outras opiniões, mesmo sem as adotar, essa curiosidade tende a estreitar-se com o tempo.
Na prática, isto traduz-se numa ideia simples de comunicar aos alunos, mas difícil de instalar como hábito: a leitura por prazer não se opõe à leitura mais analítica, complementa-se com ela. Trabalhar aquilo que já interessa a um aluno é o ponto de partida natural para, a partir daí, o conduzir a outros livros, outros temas, outras perspetivas. Em Portugal, é exatamente esse o espírito que sustenta os clubes de leitura do Plano Nacional de Leitura 2027, ao apostar na leitura voluntária e situada como porta de entrada para hábitos de leitura mais alargados e mais exigentes.
Uma proposta para a sala de aula
Uma forma simples de tornar esta reflexão tangível é propor, a meio de um período, uma espécie de leitura cruzada: cada aluno escolhe um livro que represente verdadeiramente o seu gosto pessoal e troca-o, por algumas semanas, com um colega cujas escolhas habituais sejam visivelmente diferentes das suas. No final, em vez de um resumo convencional, cada um regista por escrito o que esperava encontrar no livro do outro antes de o abrir, e o que efetivamente lá encontrou. A distância entre essas duas listas costuma ser, ela própria, a melhor aula sobre a diferença entre interesse e ideologia. Os alunos percebem, muitas vezes pela primeira vez de forma explícita, que tinham atribuído ao colega — através do livro que ele lia — uma identidade que talvez nem correspondesse à pessoa real sentada ao lado deles.
Esta atividade pode ser repetida com diferentes configurações ao longo do ano, e funciona tanto em Português como em contexto de Cidadania e Desenvolvimento, sempre que o objetivo seja trabalhar pensamento crítico e relacionamento interpessoal a partir de material concreto, em vez de discussões abstratas sobre tolerância ou diversidade de opiniões.
Ler para pensar, não para confirmar
A pergunta com que se abre este artigo — somos os livros que lemos? — não tem uma resposta simples, e talvez seja essa, no fundo, a lição mais útil para levar para a sala de aula. A identidade leitora não se mede pelo que se lê, mas pela disponibilidade para continuar a querer ler coisas diferentes do que já se sabe. Ensinar isso aos alunos é uma tarefa tão antiga como a própria escola: ensinar a pensar, através dos livros, sem nunca confundir o que se aprende com aquilo em que já se acreditava antes de abrir a primeira página.
| TIC, Educação e Web, Jorge Borges |