segunda-feira, 30 de abril de 2012

Uma singela história de amizade

A ascensão e queda de Holly Golightly, uma jovem actriz que parte para a grande cidade, assemelha-se à própria biografia do autor.
"Breakfast at Tiffany's", título original de "A Boneca de Luxo", publicado pela primeira vez em 1958, poderia ter sido escrito hoje. Holly Golightly, a personagem principal, persiste no meio artístico norte-americano, 44 anos depois da publicação do livro. Num dos romances mais apreciados de Truman Capote, o mestre do "novo jornalismo" faz o (auto) retrato da artista provinciana, viciada, boémia e mundana, que procura o luxo e a luxúria sem renegar os valores tradicionais da província.
 É uma singela história de amizade entre um aspirante a escritor e uma estrela feminina que vive, quase inocentemente, num mundo de mentira e deslumbramento. É uma amizade possível, esta, entre dois vizinhos, porque ao escritor não interessa tudo aquilo que interessa a todos os outros homens que andam em redor de Holly Golighly, uma verdadeira boneca que não deixa indiferente aqueles com quem se cruza. Por isso mesmo, pelo manifesto desinteresse carnal que ele manifesta, Holly confia-lhe a sua amizade.
A acção decorre em Nova Iorque entre 1943 e 1944, cidade (ou pelo menos o bairro onde vivem os protagonistas) que Truman Capote descreve e recria com a extrema simplicidade e objectividade da sua escrita jornalística. Não há palavras a mais, nem descrições em excesso, mas não se trata de uma obra crua e seca, porque o que existe neste livro é moderação, o que não impede a composição de retratos coloridos e intensos de personagens e locais.

domingo, 29 de abril de 2012

Romance de comédia social

Como uma viagem a Itália desperta Miss Lucy Honeychurch, inglesinha educada com chá, partidas de ténis e “Beethoven a mais”
É uma Primavera, no princípio do século XX. Ingleses mais ou menos abastados desembarcam em Itália para uma temporada artística, com o seu quê de Giotto e Boticelli. Alojam-se em pensões inglesas, comem entre ingleses, passeiam com ingleses. As solteironas estendem pedaços de gabardine em cima das velhas pedras, para não se constiparem. Continuam a tomar chá. A soprar nas luvas, quando as descalçam. E a acompanhar as jovens solteiras, que não devem, simplesmente não devem, andar sozinhas. O mundo é um quarto com vista. Avista-se. Correndo tudo conforme o esperado, sem riscos, sem história. 
Neste romance de comédia social, Forster ocupa-se de um dos seus temas favoritos: a imaturidade da classe média inglesa, aqui representada por um grupo de turistas expatriados em Florença. Os turistas ingleses são observados com um olhar minuciosamente irónico. A exceção é Lucy Honeychurch, uma jovem fascinada pela exuberância da paisagem humana e que, apesar da sua educação vitoriana, procura agir com naturalidade.
Nas suas relações com a preconceituosa prima Charlotte, os pouco convencionais Emersons e o arrogante noivo, Lucy vê-se dividida entre as atividades sociais e os sobressaltos do coração.


sábado, 28 de abril de 2012

Mário de Carvalho é um escritor único

Advertência:
Este livro contém particularidades irritantes para os mais acostumados. Ainda mais para os menos. Tem caricaturas. Humores. Derivações. E alguns anacolutos.


Se o leitor acha que um livro que nos faz rir às gargalhadas não pode ser um excelente romance, leia este
“Era Bom que Trocássemos Umas Ideias sobre o Assunto” (1995), de Mário de Carvalho, é, provavelmente, o romance mais divertido da ficção portuguesa contemporânea. É também outras coisas, mas bastaria esta para justificar a leitura. Fazer rir apenas com palavras escritas é bastante mais difícil do que se poderá imaginar.
  
"Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto" conta-nos as aventuras e desventuras, mais as segundas do que as primeiras, de um homem que quer aderir ao PCP e que não consegue. E, também, as aventuras e desventuras, mais as primeiras do que as segundas, de uma jovem de ignorância exemplar que quer ser jornalista. E que consegue.

Grande parte da genialidade deste romance reside no facto de Mário de Carvalho expor de forma bem-humorada uma visão extremamente pessimista da realidade: o saber é desprezado em benefício da imagem, as ideologias são submetidas às conveniências, aos interesses pessoais, o mérito é substituído pelo arrivismo oportunista. Exemplo maior deste profundo lamento é a crítica irónica mas mordaz ao Partido Comunista (o livro foi publicado em 1995) onde o ingénuo Joel quer inscrever-se mas depara com os maiores obstáculos, devido ao elitismo ideológico e à sua fiel guarda-costas, a burocracia.
Mário de Carvalho é um escritor único. Ainda por explicar está o facto de não ser normalmente incluído entre os grandes nomes da literatura portuguesa contemporânea. Talvez porque Mário de Carvalho não gostasse de vir a ser homem de Panteões; talvez porque nunca tivesse desejado ser escritor de guiões de telenovelas disfarçados de romances de 500 páginas; talvez porque os nossos sorumbáticos, sisudos, sonolentos e cinzentos críticos literários não gostem de quem sorri escrevendo. Talvez os nossos Torquemadas da literatura não apreciem o riso. Afinal de contas esse é uma das grandes marcas da nossa História: o riso é a antecâmara do pecado. É sempre preferível a serenidade, a paz do estar bem com todos.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

O Senhor das Palavras

Com ilustrações fascinantes
«O Senhor das Palavras era auxiliar dos escritores. Passava a vida a correr de linha em linha, a saltar de folha em folha, sublinhando ali, cortando acolá, pondo pontos em muitos "iiii". Era um trabalho difícil».
O Senhor das Palavras de Isabel Rosas

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Um livro desesperadamente feliz

Marguerite Duras - o pseudónimo do seu verdadeiro nome, Marguerite Donnadieu - nasceu pouco antes do eclodir da I Guerra Mundial, a 4 de Abril de 1914, em Gia Dinh, na Indochina. Passou a infância e a adolescência nessa antiga colónia francesa, sempre fascinada pela figura da mãe e assombrada pela imagem do irmão mais velho, Pierre.


Dois homens, uma mulher, um desencontro. É o ponto de partida para uma história de amor terrível. Memória infernal daquilo que não acontece.
Dizia Marguerite Duras: “Se não houvesse nem mar nem amor, ninguém escreveria livros.” Ainda bem que os há — porque, se tal não acontecesse, “Olhos Azuis, Cabelo Preto” deixaria de existir e de ficar gravado na memória de quem o lê. 
Olhos Azuis Cabelo Preto é um texto nos limites do confessável. O mais irredutivelmente durasiano que Duras publicou. Por isso mesmo o mais notável: simultaneamente misterioso e de uma terrível clareza.
Ao ler-se, pode sempre pensar-se que é um texto demasiado pessoal para dever ser escrito e que coloca o leitor na posição desconfortável de estar a ler um diário secreto que não lhe diz respeito. No fundo, é precisamente o contrário que acontece; não há aqui nada que seja comum passar-se entre duas pessoas, nenhuns sentimentos e nenhumas declarações vulgares de paixão.
Inevitavelmente, um texto sobre Olhos Azuis Cabelo Preto acaba por resultar periférico. Acontece quando se trata de um livro que se ocupa das duas únicas questões de que vale a pena qualquer livro ocupar-se: o amor e a morte, na sua mais desconfortável estranheza. Quase nunca se consegue dizer que o resto não tem importância sem se ser ao mesmo tempo ridiculamente pretensioso.
Duras consegue, sem pompa nem circunstância, fazer-nos perceber que chegar ao último dia não tem nada de tragicamente muito importante. Como ela diz, daqui por mil anos terão passado, dia por dia, mil anos que esse dia existiu. Daqui a séculos, o último dia será um dia datado, apenas isso. Tornar essa única verdade inteligível de uma forma não dolorosa é a primeira versão da existência deste livro, é a diferença central que o torna um livro desesperadamente feliz. É por isso que deve ser lido... 

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Uma história de amor

Este livro não é, para arrepiar caminho.

Poucos romances, em todo o século XX, nos mostraram tão intensamente como a literatura podia ser ainda uma coisa nova e viva.
Podemos começar pelo que este livro não é, para arrepiar caminho. E para isso, tomemos de empréstimo o que dele disse Jorge Luis Borges: "Não há argumento, não há conversa, não há acção." Era um cumprimento. E Virginia Woolf estaria de acordo. Assim, solto da ganga romanesca e dentro da cabeça que pulsa, o quis ela, desde o princípio. 
Bernard, Neville, Louis, Jinny, Susan, Rhoda. Seis personagens, seis vozes que falam, não umas com as outras, não para fora, mas dentro de si - há ainda uma sétima personagem, Percival, que a todos fascina, mas que nunca escutaremos.
Cada fala destas seis personagens (seis faces de um rosto único?) é a torrente caótica e fabulosa de imagens e palavras que se forma dentro da cabeça em minutos, em segundos. São eles - as suas vozes, sempre em discurso directo - que nos levam através do seu percurso, da infância à maturidade, em nove etapas. O livro percorre, nessas etapas, o tempo da vida humana.
Mas há um outro tempo, paralelo, sem personagens, sem fala, antes de cada etapa: uma descrição da viagem que o sol faz ao longo de um dia, e do efeito desse movimento numa paisagem com mar. As ondas quebram-se assim, sincopadamente, tal como bate o coração.


Virgínia Woolf

Escritora inglesa nascida a 25 de janeiro de 1882, no seio de uma família da alta sociedade londrina, e falecida a 28 de março de 1941. O pai, Sir Leslie Stephen, era crítico literário. Virginia Stephen, nome de solteira, passou a infância numa mansão londrina com os três irmãos e tratada por sete criados, convivendo com personalidades como Henry James e Thomas Hardy. Virginia tinha 13 anos quando a mãe morreu e 22 quando chegou a vez do pai falecer. Os quatro irmãos foram então viver para Bloomsbury, um bairro londrino da classe média-alta. A irmã mais velha, Vanessa, de 25 anos, tomou conta dos restantes três.
Em sua casa foi formado o Grupo de Bloomsbury, onde se reuniam regularmente personalidades como os poetas T. S. Elliot e Clive Bell, o escritor E.M. Forster entre outros artistas e intelectuais. Os quatro irmãos, entretanto, viajaram pela Grécia e Turquia, mas pouco depois do regresso morreu Tholby, em novembro de 1906. Virginia sofreu a primeira de muitas grandes depressões. Casou em 1912 com o crítico literário Leonard Woolf, que viria a ser o seu companheiro de toda a vida.
The Voyage Out, de 1915, marca o início da sua carreira de romancista, mas só dez anos depois, com Mrs Dalloway, considerado o seu primeiro grande romance modernista, chegou o reconhecimento como escritora reputada. Orlando, obra de 1928, confirmou as qualidades de Virgina Woolf. Esta obra tem um protagonista andrógino, inspirado na sua amiga Vita Sackville-West, com quem manteve uma longa relação íntima. Após obras como A Room of One's Own (Um Quarto Que Seja Seu), onde defende a independência das mulheres, The Waves (As Ondas) e The Years (Os Anos), em 1938 lançou um romance polémico, Three Guineas (Os Três Guineus), na sequência da morte de um sobrinho na Guerra Civil espanhola. Neste livro, Virginia Woolf defende que a guerra é a expressão do instinto sexual masculino. A 28 de março de 1941, pouco depois de ter lançado Between the Acts, Virginia Woolf suicidou-se, atirando-se a um rio com os bolsos cheios de pedras. Foi a segunda tentativa em poucos dias, interrompendo assim uma carreira marcada pela obtenção de diversos prémios literários, dos quais, contudo, só aceitou um, o Fémina, de França.
Paralelamente à atividade de escritora, Virginia, em conjunto com o marido, fundou e manteve uma editora, destinada a publicar textos experimentais, textos de amigos e traduções de russo. Intitulada Hobart Press, a editora funcionava em moldes caseiros, depois de em 1917 Leonard ter oferecido à esposa uma pequena tipografia.

In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011

terça-feira, 24 de abril de 2012

Reciclomania, de Pedro Seromenho

A obra imortal

A obra imortal de Primo Levi, um judeu italiano que sobreviveu a Auschwitz para escrever o mais humano e comovente testemunho do Holocusto.
Num sábado, dia 11 de Abril de 1987, por volta das 10 horas da manhã, a porteira de um sólido edifício cinzento do século XIX situado no Corso Rei Umberto de Turim tocou à porta do 3º andar para, como todos os dias, entregar o correio. Primo Levi abriu-lhe a porta, sorriu, recebeu o correio, agradeceu e reentrou. Poucos minutos depois o seu corpo estatelava-se no fundo da escada, ao lado do elevador. Morreu instantaneamente, como revelou a autópsia, que não detectou no seu corpo qualquer sinal de violência. 

Na noite de 13 de Dezembro de 1943, Primo Levi, um jovem químico membro da resistência, é detido pelas forças alemãs. Tendo confessado a sua ascendência judaica, é deportado para Auschwitz em Fevereiro do ano seguinte; aí permanecerá até finais de Janeiro de 1945, quando o campo é finalmente libertado.
Da experiência no campo nasce o escritor que neste livro relata, sem nunca ceder à tentação do melodrama e mantendo-se sempre dentro dos limites da mais rigorosa objectividade, a vida no Lager e a luta pela sobrevivência num meio em que o homem já nada conta.
Se Isto é um Homem tornou-se rapidamente um clássico da literatura italiana e é, sem qualquer dúvida, um dos livros mais importantes da vastíssima produção literária sobre as perseguições nazis aos judeus. 

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Uma obra-prima do romance do século XX

Sátira política, fantástica e lírica, "Margarita e o Mestre" esteve proibida na URSS durante quase 30 anos. Uma obra-prima do romance do século XX


Romance escrito por Mikhail Bulgakov durante a década de 30, e publicado pela primeira vez em duas partes, na revista mensal Moskva.
Quando a primeira parte apareceu, em novembro de 1966, os cento e cinquenta mil exemplares da tiragem da revista esgotaram-se numa questão de horas e, nas semanas seguintes, foram mantidos grupos de discussão, passando a ser comum na vida quotidiana de Moscovo o emprego de citações, tornadas proverbiais, da obra de Bulgakov.
A segunda parte seria publicada na edição de janeiro de 1967 da mesma revista, tendo sido acolhida com o mesmo entusiasmo. Bulgakov não era um escritor desconhecido, tendo brindado o público russo com várias peças de teatro e alguns romances antes da sua morte, ocorrida em 1940.
A feitura de Margarita e o Mestre aconteceu quase em segredo absoluto. Bulgakov tinha sido praticamente interdito de escrever pelas autoridades soviéticas, e o conteúdo da obra emergente poderia ter causado ao escritor, em caso de descoberta, inúmeros dissabores, senão mesmo a morte. O facto de Bulgakov ter sido escamoteado dos prelos contribuiu também para a surpresa geral suscitada pela publicação do romance, possível apenas após a morte de Estaline.
Utilizando os moldes de Fausto, Margarita e o Mestre é uma enorme sátira, não aos costumes da intelectualidade de Moscovo, como também do próprio regime estalinista. A ação decorre em Moscovo e em Jerusalém, chamada na obra de "Yershalaim". As personagens principais são Woland, uma personificação do demónio, o seu acólito, um poeta de nome Ivan Sem-Abrigo, Pôncio Pilatos, um escritor sem nome conhecido como o "Mestre" e Margarita. Contrariamente às versões tradicionais do 'Fausto', Margarita revela-se, no romance de Bulgakov, como sendo uma poderosa feiticeira que, em última análise, é responsável pela salvação do mestre.
Cristão convicto, Bulgakov revolta-se contra a imagem de Jesus Cristo apresentada pela propaganda soviética, pelo que a obra pode ser vista, tanto como uma clara parábola, em que Woland, o diabo, é Estaline, como também uma autobiografia simbólica, sendo Margarita a terceira mulher do autor, Yelena Sergeyevna Bulgakova, que havia recentemente desposado.

O medo e a melhor forma do enfrentar

Hoje é dia para celebrar


domingo, 22 de abril de 2012

quinta-feira, 19 de abril de 2012

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Contando uma história

Antero de Quental

Nirvana

Viver assim: sem ciúmes, sem saudades,
Sem amor, sem anseios, sem carinhos,
Livre de angústias e felicidades,
Deixando pelo chão rosas e espinhos;

Poder viver em todas as idades;
Poder andar por todos os caminhos;
Indiferente ao bem e às falsidades,
Confundindo chacais e passarinhos;

Passear pela terra, e achar tristonho
Tudo que em torno se vê, nela espalhado;
A vida olhar como através de um sonho;

Chegar onde eu cheguei, subir à altura
Onde agora me encontro - é ter chegado
Aos extremos da Paz e da Ventura!
Antero de Quental, in "Sonetos"

quarta-feira, 11 de abril de 2012

domingo, 8 de abril de 2012

Um fantástico romance épico


Boris Pasternak foi Prémio Nobel de Literatura no ano de  1958 e para isso em muito este fantástico romance épico, publicado precisamente nesse ano,  terá contribuído. 
Esta é a história de Iuri Jivago, médico de formação e poeta,  cuja postura perante o regime soviético lhe trará vários dissabores. Iuri é um homem culto, oriundo do meio burguês,  que luta pelos seus ideais e que se vai apercebendo da forma errada como a revolução se desenrola e das crueldades e injustiças de que os Russos são vítimas impotentes e constantes. A vida amorosa de Iuri vai também sofrer os percalços deste período de terror. Há quem considere que Iuri é um alter-ego de Pasternak dado este também ser um poeta com  problemas com o regime, tendo mesmo sido enviado para um Gulag.
Um excelente retrato dos anos que antecederam e se seguiram à revolução Russa, das esperanças e consequentes desencantos sentidos por uma população ávida de justiça e sucessivamente massacrada.
De notar que este livro apenas foi editado na União Soviética após a abertura proporcionada pela Perestroika e que aquando da atribuição do Prémio Nobel, Boris Pasternak foi impedido de o receber.

sábado, 7 de abril de 2012

Um realismo mágico

Por Marisa Torres da Silva

"Paula", de Isabel Allende, é o testemunho contado na primeira pessoa sobre a morte de uma filha. Como se de uma viagem ao sofrimento humano se tratasse, o livro percorre também a vida da escritora, entrecortada por alegrias e tristezas, acontecimentos que fizeram história, personagens diversas, amores e desilusões
Isabel Allende garante que esta obra não é sobre a morte. "O meu livro 'Paula' é uma memória trágica da história da morte de uma jovem rapariga, mas sobretudo uma celebração da vida. (...) A sua longa agonia deu-me a oportunidade única de rever o meu passado." Com efeito, embora "Paula" tenha como ponto de partida e fio condutor a doença da filha da escritora, o livro vai-se transformando num autêntico documento autobiográfico, à medida que Isabel Allende faz desfilar as figuras e os acontecimentos que intervieram na sua vida. Não se trata de uma mera obra auto-complacente, portanto.
Como afirma a escritora, o romance serviu de veículo para prolongar a presença da filha junto da mãe, para manter a vida que já a tinha abandonado desde o momento em que deu entrada no hospital, mergulhando num coma profundo. Para Isabel Allende, a escrita funcionou aqui como um elemento catártico, a salvação para a mais profunda das agonias, fixando no papel as memórias e as recordações, para que o tempo não as apagasse irreversivelmente.
Ao mesmo tempo que a autora exprime os dolorosos estados de espírito em que se encontra, plenos de dúvidas e de receios, essa longa viagem ao interior de si mesma, quando confrontada com uma situação limite, dá lugar a uma reconstrução da história da sua família. Em "Paula", Isabel Allende como que pinta um auto-retrato, apoiado em informações da mais variada índole, acerca dos seus progenitores, infância, desgostos, crenças e métodos de trabalho. Talvez porque, como diz, "toda a ficção é, em última análise, autobiográfica. Escrevo sobre amor e violência, sobre morte e salvação, sobre mulheres fortes e pais ausentes, sobre sobrevivência".

Todas as suas memórias que inevitavelmente florescem com o decorrer da escrita são retocadas com a linguagem que habituou e prendeu leitores em todo o mundo, reminiscente do chamado realismo mágico sul-americano. Há, aliás, quem a considere uma parente pobre de Gabriel García Márquez. Gostos à parte, certo é que o seu estilo de escrita e as histórias que os seus livros contam a tornaram famosa.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Vivemos num mundo de histórias

« Estás para começar a ler o novo romance Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino. Descontrai-te. Recolhe-te. Afasta de ti todos os outros pensamentos. Deixa esfumar-se no indistinto o mundo que te rodeia. A porta é melhor fechá-la; lá dentro a televisão está sempre acesa. Diz aos outros: "Não, não quero ver televisão!". Levanta a voz, senão não te ouvem: "Estou a ler! Não quero que me incomodem!". Não devem ter-te ouvido, com aquele barulho todo; fala mais alto, grita:”Estou a começar a ler o novo romance de Italo Calvino!”…»

É com este convite especial que o autor nos introduz no seu novo romance cuja arquitectura assenta nos inúmeros percalços que assaltam um leitor e uma leitora desde o momento em que se vêem confrontados com a súbita interrupção da história de Se numa noite de Inverno um viajante e decidem investigar a origem de tal facto.

O romance divide-se em doze capítulos, os primeiros dez seguidos cada um de um título que introduz uma história diferente, sempre iniciada e interrompida num momento aliciante da leitura. Os capítulos com numeração parecer conter a voz do autor empírico Ítalo Calvino, os restantes iniciam dez romances de autores imaginários, cada um com um título diferente, resultantes da busca incessante que o leitor faz para averiguar o que se passou, de facto, com o percurso do romance com que iniciou a leitura. O conjunto dos diferentes títulos surge, a dado momento, num texto corrido constituindo ele mesmo um corpo significativo:
Se numa noite de Inverno um viajante, fora do casario de Malbork, debruçando-se da escarpada falésia sem temer o vento e a vertigem, olha para baixo onde a sombra se adensa numa rede de linhas que se entrelaçam, numa rede de linhas que se intersectam no tapete de folhas iluminadas pela lua à volta de uma cova vazia ,- Que história lá ao fundo espera o fim?

Este livro, de surpreendente estrutura, torna-se original pelo permanente diálogo com o leitor que é também personagem e, por outro lado, com o leitor real, aproximando-nos da construção narrativa e levando-nos a apreciar a mestria da escrita, com um conjunto de expressões que apetece reter, passar para um caderno para reler um dia.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Uma bela metáfora

O relato de uma época, onde a paisagem física e social é pintada com as palavras que mergulham na memória, impregnada de nostalgia. A fotografia de uma realidade social, enquadrada no cenário de guerra colonial na belíssima costa moçambicana.

O Prólogo, onde a Autora dá voz a Eva Lopo, começa por descrever a faustosa cerimónia da festa de casamento de Evita e Luís Alex, da qual sobressai a exuberância patente na profusão dos frutos exóticos e mariscos; destaque também par a outra cena, o reverso da medalha, ou o outro lado do paraíso, onde a matança dos flamingos, que constitui uma metáfora a representar a embriaguez que leva ao desejo compulsivo de matar de onde se depreende parecer fácil cruzar o limite de “matar para não morrer” e exercitar, a partir dali, o prazer de apertar o gatilho para “fazer o gosto ao dedo”. Lídia Jorge consegue mostra de uma forma crua e simultaneamente bela que a facilidade com que se dizima um bando de flamingos da cor da alvorada é a mesma com que se procede à chacina de um grupo de rebeldes locais. Trata-se de uma metáfora de coragem e integridade que nem sempre se consegue reconhecer de imediato: o bando de flamingos não se desfaz facilmente, mantendo a formação em direcção ao objectivo, apesar daqueles que ficam para trás e se afundam no pântano, caídos perante as balas do inimigo…

quarta-feira, 4 de abril de 2012

terça-feira, 3 de abril de 2012

Uma viagem pelos recantos mais sombrios da psicologia humana

"O Homem que via Passar os Comboios", é uma obra que se insere no género da literatura policial, ou não fosse Georges Simenon o criador do celebérrimo comissário parisiense Jules Maigret. Kees Popinga é o protagonista deste divertido e admirável romance, que permite ao leitor realizar um trajecto pelos recantos mais sombrios da psicologia humana. Aliando o "suspense" próprio dos policiais e uma caracterização minuciosa das personagens que aí intervêm, "O Homem que Via Passar os Comboios" analisa e reflecte sobre os fantasmas que povoam o inconsciente humano, mergulhando nas profundezas da sua alma. O comportamento de Popinga contraria, em si mesmo, qualquer princípio de causa-efeito que seria de esperar, mantendo, porém, uma postura irónica e distanciada perante os acontecimentos. Além de levantar questões acerca da vida como jogo e encenação, o livro espelha também o estilo literário de Simenon, realista, simultaneamente vivo e misterioso, instintivo e concreto.«»

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Escrita com amor

Dia Internacional do Livro Infantil

Robby, os objetivos

Será a vida de Hemingway?


Para alguns, um notável exercício, para outros "mau Hemingway". Esta obra póstuma de Ernest Hemingway, apesar da falta de consenso junto do público e da controvérsia em torno do seu trabalho de edição, permanece como um belo livro da literatura actual.

O pormenor é importante quando se sabe que o material por ele usado para a escrita foi sempre muito mais a sua vida do que a imaginação. Ernest e a primeira mulher, Hadley, passaram o Verão de 1926 na Riviera francesa na companhia de uma amiga, precisamente Pauline. Mais tarde, Hemingway escreveu sobre esse Verão: "O arranjo tem vantagens até sabermos como funciona." Mais: "Quando acaba o seu trabalho, o marido tem duas mulheres atraentes por perto. Uma é nova e estranha e se ele tiver azar acaba por amar as duas... Primeiro é estimulante e divertido... Todas as coisas verdadeiramente perversas partem da inocência." Hemingway falava da sua vida. Ou seria de "O Jardim do Éden"?
Por João Carlos Silva (in coleção Mil Folhas)

domingo, 1 de abril de 2012

Dona Flor e os seus dois maridos

Segundo Jorge Amado, um livro surge às vezes de um acontecimento, de uma frase, de uma pessoa, assim como ocorreu com Dona Flor e seus dois maridos de l966.O romance é resultado de uma historia real ocorrida na decada de 30 na Bahia com uma senhora que, quando jovem, casara com um boêmio, jogador e mulherengo, morto logo depois do casamento.
A jovem viuva volta a casar com o honesto comerciante portugues Teodoro, mas algum tempo depois passa a sonhar com Vadinho, o marido morto, que lhe aparece exigente de amor. Honesta e de uma moral acima de qualquer desvio, Dona Flor passa a viver o terrivel drama sem saber como resolve-lo. Na vida real, a viuva eterniza o seu drama ao contá-lo a um amigo de Jorge Amado que na ficção se encarrega de resolver o impasse.
"Os personagens surpreendem muito. Se é vivo, reage, não obedece", explica o autor para afirmar que no romance o personagem de Dona Flor surpreende Jorge Amado ao sucumbir aos encantos do marido morto que, depois de saciado, vai embora enquanto ela se entrega ao marido real achando que se um é bom, dois é ótimo.O escritor achava que devido a sua moral irretocável Dona Flor não aceitaria os encantos do marido morto, e foi esse o fim que escreveu antes de dormir e sonhar com o outro final em que ela, afinal, cede à tentação. Para o autor, a moral do romance está em que o amor supera a morte.
"Se o meu fim prevalecesse, seria a morte que venceria".
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...